A Arte do Ataque Inteligente

Técnicas Ofensivas

 

este texto foi originalmente postado por mim no site round13.com.br com o nome de "A Ciência do Ataque"

esta é uma versão revisada, ampliada e ilustrada daquele texto.

DEZEMBRO DE 2018

 

Por Victor Violi

 

 

Em outros esportes, como por exemplo o Futebol, os times e jogadores de ataque, sempre foram considerados altamente técnicos. Poucos considerariam aquele time que só ganha de 1 a 0 melhor que o Santos de Pelé, ou que o Barcelona de Pep Guardiola. Um zagueiro raramente é considerado mais técnico que um meio-campista ou um atacante. Pelé, Maradona, Messi, sempre serão considerados melhores que Franco Baresi, Luis Pereira, Paolo Maldini etc.


Curiosamente, na Nobre Arte, ocorre o inverso. Poucos consideram Mike Tyson, Joe Frazier, Julio Cesar Chavez, mais técnicos que Willie Pep, Floyd Mayweather Jr.

 

O Ataque no Boxe sempre foi algo pouco examinado do ponto de vista técnico. E boxeadores altamente ofensivos sempre tiveram uma certa reputação de serem mais força e físico do que técnica e inteligência.

 

Neste texto, tentarei demonstrar o porque este estereotótipo não conta toda a verdade. 
A sagacidade de um boxeador, acredito, é também muito bem percebida ofensivamente. No campo ofensivo pode haver uma união de inteligência e esperteza.
Não é só o lutador precavido, as vezes receoso, cauteloso, que é o inteligente.
 

 

 

 

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Image by © Bettmann/CORBIS
 

ATACAR BEM

 

Atacar bem não consiste em avançar com o máximo de energia e vontade, algo que resultará em uma disputa de quem acerta primeiro com mais força, basicamente um duelo físico e nada mais. Sim, se for esse o jeito de atacar haveria muita razão em classificar lutadores ofensivos em meros brigões.


Mas não. Um bom ataque requer três itens básicos: preparo, técnica e organização


Com combinações e fintas sendo dois fundamentos que considero chaves na eficácia ofensiva.

 

O que chamo de “preparo” pode ser traduzido como um bom jab, simplesmente, mas também diz respeito a mobilidade em agredir. 


O jogo de pernas ofensivo para encurralar os rivais também pode ser um instrumento extremamente vital. 
 

Um jab (ou uma sequência de jabs) medirá a distância para aumentar a eficiência da precisão do golpe de mais força que se pretende acertar no outro boxeador. 

 

 

Bowe usa jabs para empurrar Ferguson contra as cordas e então disparar sua sequÊncia na curta distância.

Poderá também “cegá-lo”, para dificultar a antecipação do golpe que está por vir. Estes pontos são abordados no Texto PILARES DO BOXE.

 

Um “falso jab” pode ser usado como distração, isto é, o “preparo” também pode vir na forma de fintas. E veremos mais adiante o que são estas fintas e como são usadas pelos boxeadores.


Mas, em primeiro lugar, vamos examinar a COMBINAÇÃO DE GOLPES.

 

 

Combinar

 

"Não há mais que cinco notas musicais e todavia a combinação delas dá surgimento a mais melodias do que as já conhecidas. Não existem mais que cinco cores primárias e, no entanto, sua combinação produz mais matizes do que os já vistos. Não conhecemos mais de cinco paladares fundamentais, ácido, picante, salgado, doce e amargo, e, no entanto, a combinação deles produz mais sabores que os já provados.
Na batalha, porém, não há mais de dois métodos de ataque: o direto e o indireto; todavia, a combinação dá ensejo a uma infindável série de manobras. Um método sempre conduz a outro. É como mover-se em círculo: nunca chega-se ao fim. Quem pode esgotar as possibilidades de sua combinação ?"
- Sun Tzu

 

O general chinês Sun Tzu escreveu essas palavras há 2 mil e 500 anos, aludindo a regras do combate armado, mas são perfeitamente aplicáveis na esfera do Pugilismo. Nada além de duas mãos é permitido no Boxe, e, no entanto, essas duas mãos proporcionam uma infinidade de utilidades para a sua eficiência nos ringues.

 

Aqui, tentarei usar a terminologia universal em inglês dos golpes para evitar confusão já que a terminologia em português varia de lugar para lugar, sem que existam nomenclaturas erradas ou absolutas (em inglês também varia).

Usando o padrão de um boxeador destro, temos o jab (com a esquerda), left hook (gancho de esquerda), straight right (direto de direita), right cross (cruzado de direita) e o uppercut.
Literalmente a tradução de Cross é cruzado, e de Hook é gancho. O cruzado seria o golpe curvo com a mão de trás. ESSA É A NOMENCLATURA EM INGLÊS, não estou dizendo que é a única certa, já vi treinadores de uma mesma cidade chamarem os golpes de nomes diferentes, não vamos nos apegar a esses detalhes meramente terminológicos neste texto.

 

Enfim, também não é o intuito deste texto prescrever quais combinações são as melhores ou piores.

 

Apenas discorrer e mostrar as combinações mais usadas, e mais básicas. E, a importância de combinar os golpes de uma maneira geral. 

 

Putting the punches together” é o que se diz em inglês, ou seja, colocar os golpes juntos, mescla-los, misturá-los. 

 

A primeira combinação que acredito ser a mais básica, é o jab, direto, o famoso 1-2.
 

Alguns, como o professor José Roberto de Oliveira, um old school com 6 décadas de treinamento de Boxe (um conhecedor de boxe ofensivo) preferem o que eu vou chamar de 1-1-2, ou seja um jab duplo de início e, aí sim, um direto.

 

Claro. Na minha opinião, faz todo o sentido. Afinal, levando-se em conta que essa é a primeira combinação de um aspirante a lutador, será melhor usar dois jabs! 

 

Qual é uma das funções do jab ? Preparar os outros golpes. Ora, preparar a direita com apenas um jab único requer um pouco mais de experiência, preparar com 2 me parece ser a melhor solução para alguém ainda com dificuldades em encontrar a distância certa.

 

A outra combinação mais clássica de todas é:
Jab-Direto-Gancho de Esquerda.


 

Aproximando-se, o boxeador pode adicionar os uppercuts e golpes no corpo. (ganchos de esquerda e golpes no corpo serão tratados mais detalhadamente nos tópicos O Left Hook e Dossiê do Infighting)
Lembrando o que já foi dito no tópico Pilares do Boxe. O uppercut é um golpe que só deveria ser usado em curta distância.
Jogado de uma distância errada ele pode ser um problema.

 

Monzon prepara um uppercut de direita (sem preparação e fora da distância do uppercut.) Briscoe se aproveita (Monzon sobreviveu e inclusive venceu a luta, mas foi um dos maiores sustos de sua carreira.

 

 

Mas devo dizer que o uppercut com a mão da frente pode ser desferido com mais segurança de uma distância relativamente longa (média).
 

 


Uma vez na média/curta distância há a possibilidade de combinar golpes na cabeça e no corpo (isto será melhor tratado no tópico Dossiê do Infight).

 


Mencionei como um dos três pontos importantes do ataque a técnica, e sem uma técnica boa de desferimento de golpes a sua combinação não será a melhor possível em termos de ofensividade e ainda deixará espaços para os contragolpes. A combinação de golpes pode ser uma desvantagem para o pugilista com técnica de golpe ruim.


O que me referia quanto a organização seria nada mais que uma sequência natural de golpes. Poucas vezes você verá um boxeador combinar um uppercut de direita com um direto com o mesmo punho, por não ser uma ordem de golpes funcional na prática.

 

Mas, de outro modo, há que se atentar para que seu ataque não fique algo esperado, previsível. Quando um boxeador só combina jab, direto e gancho de esquerda,  estamos diante de alguém que, encarando um adversário mais experiente, terá seus movimentos antecipados muitas vezes.

 

É que, após um tempo, vários boxeadores criam uma espécie de sexto sentido, de prever os golpes do adversário, devido a um padrão de combinações. Na maior parte das vezes quando alguém lança um golpe de esquerda o próximo golpe a vir é uma direita, sabedor dessa regra o boxeador hábil, instintivamente, se defenderá do próximo golpe com antecedência.  Óbvio, ele sabe qual é o próximo golpe.

 

Por isso, as "combinações modelos" de grandes pugilistas eram um pouco diferenciadas. Mike Tyson possuia uma combinação própria de gancho de direita na linha de cintura e subia com o uppercut com a mesmão mão. É um tipo de sequência de golpes mais imprevisível e que segue uma lógica natural, um golpe na linha de cintura e a mesma mão sobe para atingir a cabeça com o uppercut.

Joe Frazier preparava seu belo gancho de esquerda com uppers ou jabs. (em breve você verá um texto detalhado sobre as combinações favoritas dos grandes boxeadores).

E falando em Joe Frazier, em seu livro Box Like the Pros, ele considera que as Combinações Básicas do Boxe são 4:

 

-Jab- Direto (o 1-2)
-Uppercut de direita e Gancho de esquerda (quando no infight)
-Gancho de Esquerda duplo (
esse é Joe Frazier falando, o melhor gancho de esquerda da história)
-Jab-cruzado de direita-gancho de esquerda.

 

Tendo feito essa introdução, o cerne deste texto são as FINTAS.

 

 

Fintas- O Drible do Boxe

 

 

Toda operação militar tem o logro como base” - Sun Tszu


Logro significa armadilha.

 

O que é finta? Uma armadilha. Uma ilusão, um embuste para enganar o adversário. Isso significa fintar na Nobre Arte. 


Jack DEmpsey em Championship Boxing:


"A finta é um golpe falso que não é desferido."

 

Ou é simplesmente fazer um movimento, falso. Seja com o corpo, seja com as punhos, com as pernas, alguns dizem que usam até os olhos para ludibriar o adversário. 


Joe Frazier:
"Simplificando, fintar é fazer o seu oponente pensar que vocÊ vai fazer uma coisa que você na verdade não vai fazer."

 

Fazê-lo reagir e assim abrir brechas em sua defesa. 


É o drible do Boxe. Um driblador do futebol é aquele que parece que vai para um lado, o defensor acredita que ele está indo para um lado quando na última fração de segundo, muda a trajetória e engana seu adversário. 
Finge que pretende ir para um canto, enquanto planeja ir para o outro. E o bom fintador, assim como o driblador, precisa fazer parecer verdadeira a sua falsa intenção. Por isso, sua finta precisa ser certeira e elaborada, mas sutil.

 

BOXING US NAVY 1943:
"No Boxe, assim como no Futebol, uma abertura tem que ser criada."

 

O lutador precisa atuar, fingir. Ser astuto. Esse é o boxeador inventivo, em minha visão, um ótimo exemplo de um boxeador inteligente, aquele que ilude seu adversário para desatar a defesa. É um jogo de raciocínio rápido, leitura corporal e por fim, execução apurada.


Acredito que um dos grandes diferenciais da escola americana de Boxe seja a habilidade com que todos os seus boxeadores, de todos os pesos e diferentes estilos, aplicavam e aplicam fintas. De Mike Tyson a Willie Pep, os boxeadores Estadunidenses sempre contaram com uma boa dose desse fundamento para fortalecer seus arsenais e aumentar o número de acerto de golpes.


Joe Frazier (Box Like the Pros):
"A chave para usar bem as fintas é prestar atenção em como seu oponente reage com o que vocÊ faz. Por exemplo, se toda vez que vocÊ solta um jab seu adversário agacha, você pode fintar um jab, esperar até ele voltar daquela agachada e aí sim acertar ele com um jab que ele não estará esperando e uma direita em sequência." 

 

Jack Dempsey em seu livro Championship Fighting:
"Com a prática, você vai descobrir que pode fintar seu adversário e fazer com que ele faça qualquer coisa. Você pode fazer ele esquivar para um lado, assim ele ficando em posição para ser acertado por um gancho. Você pode fintá-lo para que ele pendule em direção a um uppercut. E você pode fingir um golpe para descobrir qual tipo de defesa ele vai usar contra aquele golpe em particular."

 

As fintas podem ser de diversos tipos. Alguns boxeadores constantemente mexem seu corpo fingindo preparar um ataque, desse modo mantendo o oponente ocupado, preocupado defensivamente, isso por si só atrapalha qualquer investida que este poderia iniciar e faz o seu volume de luta baixar naturalmente. 
 

parece bobagem, mas acredito que esse tipo de movimento faz Willard pensar melhor antes de atacar. e fazendo o oponente pensar antes de soltar seus golpes você automaticamente fará ele baixar o volume de golpes

 

Bernard Hopkins e Nicolino Locche sempre foram mestres nisso e era muito comum que os adversários de Hopkins acabassem por soltar menos do que costumavam quando enfrentavam-o, e acredito que uma das razões era seu contínuo uso de movimentos corporais a fim de confundir seu oponente.

 

Um lutador que se mantém estático e com pouca mobilidade de cintura e de ombros acaba por ser alguém muito mais fácil de se decifrar, e encoraja o adversário a soltar mais golpes e ir pra cima. Além disso se alguém faz sempre a mesma coisa no mesmo ritmo, um adversário bom vai ter facilidade em contragolpeá-lo conforme o tempo passar.

 

Veja neste vídeo, como Erik Morales faz bem o uso desta finta corporal, para tapear seu oponente:
 

A habilidade de raciocinar na frente de seu contendor vale mais que qualquer atributo físico. O Boxe premia, acima de tudo, aquele lutador que acerta os melhores golpes em maior quantidade.
Já nesta luta, Nonito Donaire faz o uso de uma direita para acertar seu uppercut de esquerda.

 

Preste atenção como a direita é um “falso golpe”, ou um “meio golpe” já que não completa toda a sua trajetória, não atinge o rosto de seu oponente. O resultado foi um golpe certeiro e inesperado naquele momento.

 

Mas voltando ao jab, e sua função preparatória sem igual, o que se chama de “falso jab” é muito bem visto em lutas do nicaraguense Alexis Arguello. Veja:

Um dos golpes mais definidores que um boxeador pode ter, o gancho de esquerda. O jab funcionou como um embuste para Escalera se descuidar em uma fração de segundos.

 

VocÊ viu no texto Pilares do Boxe sobre a defesa "parry". Um dos modos de batê-la é usando de fintas como Arguello fez no vídeo acima. Escalera tenta "pegar" o jab de Arguello, e Arguello se aproveitou da mão fora de lugar de Escalera para acertar o gancho. 

 

* detalhe válido para combinação de golpes, a combinação JAB-GANCHO DE ESQUERDA é um das mais usadas por Arguello, pois não é uma combinação esperada, e sim imprevisível, um falso jab e um left hook longo, além de ser muito efetiva contra quem usa o parry para interceptar os golpes com as luvas.

 

Changing Levels

 

Ainda dentro das armadilhas ofensivas. Temos o “Changing levels” como dizem os americanos, ou “mudando os níveis”. Fazer um lutador se preocupar com a cintura e de repente atacá-lo na cabeça. 


Após sua luta contra Jessie Vargas, Tim Bradley escolheu Teddy Atlas como seu novo treinador, e uma das razões foi o conhecimento que Teddy demonstrou quanto a importância das fintas, Bradley disse:


“Ele me perguntou, '‘o que você faz quando um cara se agacha na sua frente? Você agacha junto com ele. Você não fez isso. Você achou que ele ia pra sua cintura mas não, ele queria sua cabeça. Ele te enganou’'” 
 

Assim também foi na luta entre Joe Louis e Primo Carnera.

 

Carnera, um gigantesco peso-pesado, maior que Louis, oferecia um bom alvo para o americano em seu corpo. Além de que, Carnera era muito perigoso na curta distÂncia pois era dono de um jogo sujo no clinch. 
Portanto, Louis se via em um dilema.
 

Louis então constantemente se agachava, fingia ir ao corpo, e efetivamente atirava golpes na região do estômago de Carnera, que automaticamente ia cada vez mais se preocupando com o corpo, além de cada vez mais ir golpeando pra baixo. 
Louis acabou definindo a luta com uma direita na cabeça de um monstro de 2 metros de altura:

 

(você verá esta luta Joe Louis vs Primo Carnera ser analisada em detalhes na SÉRIE: ANALISANDO OS GRANDES CLÁSSICOS DO BOXE)

 

E, assim, os golpes na região do corpo também podem ser caracterizados como uma grande forma de preparo, não deixam de ser um mecanismo inteligentíssimo para se definir o resultado apesar de serem ferramentas de nocautes frequentemente. Esta variação acaba por formar um sólido arsenal de ataque.

 

Como disse certa vez Bernard Hopkins para a revista The Ring em uma entrevista: “O propósito de combinar golpes é manter seu adversário tentando adivinhar”. E esta é uma perfeita definição para a combinação de golpes.

Mas, adiciono que, o propósito de todas essas técnicas de ataque é fazer com que seu adversário, neste exercício de adivinhação, suponha errado.

 

O ataque no Boxe, no final das contas, é um jogo de disfarces.
 

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