PERFIL - LUIS FAUSTINO PIRES

 

 

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                                                                                    fonte da foto: Revista PLACAR.

Por Victor Violi

 

Dezembro de 1965, e o Boxe brasileiro vivia uma época de ouro com o campeão Éder Jofre sendo reconhecido dentro e fora do país. Nesse mês, em São Paulo, uma programação de Boxe teria um profissional chamado Luis Faustino Pires fazendo sua estreia:

 

na segunda luta do programa também houve nocaute, no 1.o assalto. Luis Faustino Pires estreou como profissional e colocou o carioca Hiram Campos na lona aos 2 minutos e 59 segundos, com uma combinação de cruzados na cabeça Hiram ergueu-se quando era contado o oitavo segundo, mas o árbitro continuou a contagem, até o 10.” (O ESTADO DE S. PAULO: 08 de Dezembro de 1965, Geral, pag. 21) *

 

Começava a carreira de boxeador profissional do mineiro radicado em São Paulo Luis Faustino Pires. Nome que até os dias de hoje, não raramente, segue sendo mencionado como um dos melhores pesados do esporte no Brasil.

 

Porém, as coisas eram diferentes no modo como os profissionais do Boxe eram tratados antigamente. O caminho que percorriam até um lugar de destaque, na verdade, era extremamente diferente. E isso se percebe logo de cara quando notamos que o adversário da estréia de Faustino, Hiram Campos, era um experiente ex-campeão brasileiro dos meio-pesados.

 

Luis Pires é um dos exemplos da tarefa árdua que a maioria dos pugilistas cumpriam no início de carreira.

 

Lutadores jovens eram colocados em situações arriscadas sem que nenhuma hesitação ocorresse. O que muitas vezes atrapalhava a carreira de alguns no futuro, mas que tinha como vantagem a experiência adquirida depois dos testes.

 

Lima, Peru. E o título Sul-Americano dos Pesados.

 

Em sua sexta luta, o mineiro de Ewbank da Câmara já disputava o Título Sul-Americano dos Pesados contra o duro peruano Roberto Davila, que já tinha em sua bagagem 26 lutas como profissional (boxrec).

Davila era um boxeador clássico, de movimentos elegantes que apesar de não possuir muita velocidade de mãos tinha reflexos defensivos muito bons.

 

E, além disso, era muito experiente, acostumado com lutas duras. Tendo dividido o ringue com lutadores muito conhecidos como Gregorio Peralta, Amos Lincoln e Leotis Martin (que nocauteou Sonny Liston) entre outros.

Para piorar a situação, Pires lutaria em Lima, Peru.

 

Mas, surpreendentemente, o brasileiro venceria de forma incontestável e voltaria ao Brasil como o campeão peso-pesado da América do Sul.

 

Luis Faustino Pires disse que poderia ter terminado a luta no sexto assalto, por nocaute, não fora a intervenção do juiz, que auxiliou em diversas ocasiões o lutador peruano. Luis Faustino Pires milita no boxe há seis anos, mas luta como profissional há um ano.” (FOLHA DE S. PAULO: 31 de maio de 1967, Ilustrada, pág 8).

Não se deixe enganar pelo grande número de cinturões que o boxe atual dispõe, nos velhos tempos o Título Sul-Americano era algo que colocava o seu detentor na vitrine internacional. Um cinturão acima de tudo respeitado mundialmente.

 

No aeroporto de Congonhas, Luis seria recebido com festa:

Público bastante numeroso recebeu o novo campeão sul-americano. Vários integrantes da Força Pública, inclusive alguns oficiais, estiveram em Congonhas para receber Luis Faustino Pires que pertence a corporação.” (O ESTADO DE S.PAULO: 31 de maio de 1967, Geral, pág 15).

 

Com somente 1 ano e alguns meses de profissionalismo, Pires era o primeiro campeão que o Brasil tinha da categoria máxima.

 

Bonavena, EUA, Foreman….

 

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na capa da The Ring, sobre sua luta contra Ron Lyle em 1972 (Luis perdeu por nocaute no terceiro round)

 

 

Como se não fosse suficiente o obstáculo de lutar com Davila como visitante pelo título, dois meses depois Pires viajaria para a Argentina para enfrentar simplesmente Oscar Ringo Bonavena.

 

O melhor pesado argentino de todos os tempos. Um pegador violento.

 

Boxeador que teve lendas como Joe Frazier em seu cartel, a quem deu uma luta duríssima (levou Frazier à lona duas vezes), assim como Muhammad Ali, Floyd Patterson e teve vitórias históricas contra George Chuvalo, Karl

Mildenberger entre diversos outros lutadores excelentes.

 

Bonavena era jovem, mas possuía muita vivência dentro do quadrilátero, além de um estilo pouco ortodoxo, difícil de decifrar. O duro pegador buenairense era acostumado com lutas difíceis e vantagens como estas provaram ser demais para que o brasileiro pudesse surpreender novamente em um país vizinho.

 

Luis ofereceu resistência, mas não continuou após o término do quinto round. Eles lutaram por mais duas vezes nos próximos anos, com duas novas vitórias de Ringo.

 

Seguiram-se os anos e Luis prosseguiu com sua carreira, lutando somente no exterior. Conheceu bem o lendário Madison Square Garden além de outras arenas nos Estados Unidos.

 

Obteve vitórias importantes, contra Bill Drover e Willie Burton. Burton sendo um ex-tri-campeão do prestigiado campeonato Golden Gloves de New York no amadorismo. E invicto no profissionalismo na época.

 

No primeiro encontro entre os dois, Luis adotaria uma postura muito agressiva e apesar de ser cortado pelos golpes do americano no início do combate dominaria a ponto de fazer o árbitro interromper o combate quando Burton se encontrava indefeso contra as cordas no sétimo round. (FOLHA DE S. PAULO, 01/11/69, Primeiro Caderno, pág 13).

 

Willie Burton seria derrotado por duas vezes pelo brasileiro, assim como aconteceria com Bill Drover, dentro dos Estados Unidos.

 

Luis também chegou a enfrentar Ernie Terrell, ex-campeão mundial dos pesados, uma das grandes figuras do Boxe no final dos anos 60.

 

Em Chicago, Pires teria seus momentos durante a luta:

Schenectady Gazette – 11 maio 1971:

 

Pires teve seus dois melhores rounds, no sexto e no sétimo, quando ele conectou com direitas e esquerdas. Depois de um oitavo round igual, Terrel de novo atordoou seu adversário com uma combinação esquerda-direita no fim do assalto quando Pires começou a sangrar muito por causa de um corte dentro da boca. Mas novamente Terrel foi incapaz de finalizar

 

Terrell, que possuia um jab excelente, levaria a vitória em decisão unânime durante 10 rounds.

Com 4 vitórias em 6 lutas disputadas no país do Boxe, chegaria o mês de outubro do ano de 1971. Quando, Luis Faustino Pires enfrentaria ninguém menos do que George Foreman, o homem mais temido do mundo naquele momento, um peso-pesado perigoso com 2 metros de envergadura, capaz de nocautear qualquer um, invicto com 31 lutas e 31 vitórias sendo 28 por nocaute.

 

Já tratado como o futuro campeão dos pesados, Foreman aparentava tranquilidade quando subiu ao ringue, Luis Faustino em ótima forma também parecia assim, pelo menos não demonstrava nenhuma ansiedade demasiada.

 

Pires gostava de economizar suas energias, mas logo nos primeiros instantes do round inicial partiria pra cima de Foreman fazendo o americano recuar como pouquíssimas vezes em sua carreira.

 

Apesar desse início interessante, Foreman começaria a castigar o brasileiro logo depois, particularmente com seus cruéis golpes na linha de cintura que aparentavam uma potência muito grande.

 

Luis, corajosamente respondia, não desistia de vencer, mostrava imensa resistência, ficava encurralado nas cordas contra Foreman e então tentava responder com alguns contra-ataques, em várias ocasiões.

Infelizmente Pires machucaria seriamente o braço e teria que abandonar, uma luta que até então tinha sido violentíssima, após apenas 4 rounds.

 

O próprio Foreman após a luta, reconhecia a coragem do brasileiro:
Faustino é um homem forte e valente, assimila muito mais do que muitos dos outros que já venci” (Revista Placar, 5 de Novembro de 1971, pag 39)

 

Ainda que tenha mostrado seu nome ao mundo todo, a lesão cobraria um preço alto e Luis Faustino jamais seria o mesmo após sua luta mais famosa, e só voltaria a lutar 1 ano depois.

 

Mesmo assim foi capaz de recuperar o título Sul-Americano em 1973 e defendê-lo mais uma vez contra o antigo rival peruano Roberto Davila (já em uma fase bastante decadente).

 

O outrora famoso pesado brasileiro abandonaria o boxe em 1979 e passaria a treinar soldados na PM de São Paulo.


Luis Faustino Pires faleceu em 12 de Outubro de 2006.