Os Pilares do Boxe

 

por Victor Violi __ 

Dezembro de 2018 (texto originalmente publicado no site round13, no ano de 2016, revisto e ilustrado)

 

 

 

Todo esporte possui seus pilares, sua base, de onde nascem todos os detalhes posteriores.


Quando se vê um lutador acertando o outro repetidas vezes, ele não chegou a esse fim apenas por atirar suas mãos em direção ao outro.

 

O objeto deste texto é analisar quais são os princípios formadores da Arte do Pugilismo. Por certo o Boxe parece simples, mas envolve uma série de particularidades que devem se relacionar em harmonia. E como o

Boxe é um esporte bastante delimitado, no sentido de que você só pode usar seus dois punhos para vencer, isso tem como consequência a formação de um especialista nesta arte.... a de golpear! Mesmo que você só possa acertar alguém usando suas mãos a verdade é que, os dois punhos são apenas a parte final de tudo.

 

O objetivo é:
Acertar golpes. E não ser acertado de volta.

 

"To hit and not get hit" como diz o ditado famoso do Boxe.

 

Então, como uma pirâmide, se não houver uma série de princípios básicos que se interligam, que funcionam como um firme suporte para o resto, o resultado será deficiente. 
Este texto analisa quais são os Pilares do Boxe.

 

Acredito que são cinco:
-Postura
-Técnica de Golpe e Jab
-Movimentação e Defesa

 

 

POSTURA

 

 

Se você nunca treinou Boxe antes e começar agora, provavelmente escutará sobre a "base" em primeiro lugar, ou simplesmente a sua postura de luta.
Perna e mão esquerda à frente se você for destro, e vice-versa. Pernas ligeiramente flexionadas e afastadas a uma distância mediana, e punhos levantados.
 

O já falecido Don Familton, treinador da Velha Guarda do Boxe americano, sugere uma postura sutilmente lateral, com as mãos levantadas, o dedão esquerdo aponta, mais ou menos, para o ombro esquerdo, enquanto o dedão direito aponta, mais ou menos, para o seu próprio queixo.
 

don fam postura.jpg

Outros, sugerem uma postura mais frontal, com as duas mãos mais alinhadas e com a direita não tão atrás. 
 

postura 1.jpg

Há diversas variações, tudo depende do professor, das influências que teve, do país, da região, enfim, do seu tipo físico, não existindo uma verdade absoluta.

 

A grosso modo, podemos dizer que a postura mais lateral favorece o uso do jab e o boxe a longa distância, um estilo mais defensivo. 


Ao passo que a postura mais frontal contribui para um estilo mais agressivo, de muitos golpes no corpo e combinações de média e curta distância.

 

Mas, acima de tudo, seja qual for a escolha, o mais importante é que sua base corporal esteja firme o tempo todo, com a distribuição de peso certa para se mover, golpear, esquivar, sem perder o equilíbrio. Para andar sempre com uma perna à frente da outra, nunca com elas paralelas. Sem "levar a perna junto" como já disse Eder Jofre:
"O negócio é que, se a gente leva a perna junto, se desequilibra. Foi o que aconteceu com o João Henrique nessa última luta com o Bruno Arcari. Ele foi nas cordas bateu e, quando vinha voltando, ficou com as duas pernas juntas, na mesma linha. O Bruno Arcari pegou bem no queixo dele e o João foi andando pra trás, não conseguiu recuperar o equilíbrio." Revista PLACAR, 15 de Dezembro de 1972.

 

Você pode perceber que manter o equilíbrio é o principal, não à toa o maior boxeador de todos os tempos, Sugar Ray Robinson, era um dançarino quando não estava lutando, tamanha era sua coordenação quando caminhava.

 

Ainda, é importante para a postura correta de um boxeador, este se tornar um alvo menor, principalmente com o queixo próximo ao peito.

 

No Livro BOXING US NAVAL INSTITUTE há uma frase que acho muito explicativa:


"no Boxe, a cabeça é tratada como se fosse parte do tronco do lutador, sem movimentos independentes"

 

Sim, o boxeador deve manter o queixo protegido pelo seu pescoço, e peito, manter os ombros sutilmente levantados. E esta frase também é de extrema importância por motivos defensivos na hora de esquivar como veremos mais adiante.


E olhar sempre para frente, claro... manter a cabeça no peito não significa de modo algum olhar para o chão...  mas tirar o queixo do peito significa expor este queixo !

 

Seus olhos no seu oponente mas seu queixo não fica exposto levantado. 
 

chin to chest.jpg

Sua postura deve oferecer o mínimo de pontos desprotegidos possível.

 

Em conclusão, Joe Frazier (em seu livro Box Like The Pros) diz:

 

"Construir uma boa base depende de 4 coisas:


1- manter suas mãos altas
2- seu queixo baixo
3- os olhos em seu oponente
4- e se manter sempre em equilíbrio"

 

 

 

TÉCNICA DE GOLPE E JAB

 

"Você tá vendo ? Curto!" Eder Jofre

 

 

Após a sua base estar assegurada, acredito que a técnica de desferimento de golpes é uma consequência natural. 


O modo que você desfere o golpe faz toda a diferença no acertar e não ser acertado. E o modo que você desfere o golpe depende de vocÊ estar equilibrado na sua base.

 

Primeiramente, vamos manter as coisas simples.

 

O golpe correto é o golpe que usa o giro do corpo e não o movimento do braço. 

 

O Golpe perfeito envolve ROTAÇÃO de todo o corpo, para o golpe surgir depois desse giro. E falo, principalmente, de giro de quadril-tronco e ombro. O ombro deve estar flexível, sem muita rigidez muscular.
 

Podemos verificar este conceito muito bem assistindo a lutas de Joe Louis.

 

Em resumo:


O corpo se movimenta primeiro (com perna-quadril em perfeito alinhamento), depois, o ombro leva o braço até o alvo.
 

 

Canelo está movendo seu corpo todo para desferir a direita. Perna, quadril e ombro. O golpe só atinge o alvo quando toda essa engrenagem já se movimentou.

 

 

BOXING MANUAL BY EDWIN HAISLET 1968

 

"É a cintura que gira o braço e não o braço que gira a cintura"

 

 

Ainda, outro fator para a técnica de golpe é a compactação de golpes. 

 

 

Principalmente os golpes curvos, quanto mais curtos melhor, conforme Eder Jofre ensina no vídeo acima.

 

Eventualmente aparecem exemplos de lutadores que não possuem uma técnica de golpe tão compacta a primeira vista, mas mesmo esses pugilistas tem uma rotação de cintura, tronco, que o fazem desferir golpes de maneira 'fluida', como exemplo aponto George Foreman, especialmente o já veterano, que apesar de não possuir a técnica de golpes de um Joe Louis conseguia de maneira fácil lançar seus punhos com o giro de corpo que lhe dava o mínimo aceitável nesse quesito no alto nível mundial.

 

Falei em compactação do golpe, e em outras palavras, significa dizer que o golpe não pode ser aberto, mas, também, a distância não pode ser inalcançavel. Vamos tomar o uppercut como exemplo, é um golpe de curto alcance, veja a luta entre Holyfield e Buster Douglas.

 

Note como um uppercut tecnicamente ruim pode dar para seu adversário espaços para definir a luta.
 

 

 

 

Nos golpes retos, há ainda um detalhe primordial. Que é não criar uma "asa" quando se solta o braço em direção ao adversário.


No vídeo abaixo COACH JOE D explica a tal "asa" e como podemos treinar para que essa falha seja corrigida (o vídeo está em inglês mas dá pra entender do que se trata apenas olhando COACH JOE D, deixo o facebook dele pra qualquer um interessado em seus vídeos https://www.youtube.com/channel/UCFd-tIEZTYhdR3lWCQ7inyg  

 

Veja como é possível corrigir esta falha com um treinamento junto a parede (um jeito muito simples de treinar):

 

Esse tipo de movimento para "fora do corpo" se torna um cacoete que telegrafa os golpes RETOS, e no alto nível pode se transformar em um diferencial que trará a derrota (esse erro é algo comum mesmo nos grandes lutadores). 

 

O direto deve sair junto ao corpo. O jab também (veremos a técnica de jab no próximo tópico).

 

 

Outro adicional que faz a técnica de golpe melhorar extraordinariamente tem relação física. Flexibilidade muscular e técnica de golpe são coisas que andam juntas.

 

Algo que nota-se em boxeadores com ótima técnica de golpe é como a rotação do corpo apresenta uma grande fluidez de movimentos. A musculatura deste boxeador está toda, vamos dizer, "solta", seria a ginga de um dançarino comparada a um "cintura dura".

 

O nocaute de Vincent Pettway contra Simon Brown, é um bom exemplo de alguém usando a rotação do corpo com naturalidade, de compactação de um golpe (um gancho de esquerda) dando o mínimo tempo de reação possível ao outro boxeador e nenhum espaço para defesa.
 

 

 

JAB

 

 

"O Boxe é fácil.... se você tiver um jab!" George Foreman

 

Após essa breve introdução com o que há de mais básico em minha opinião, vamos a um ponto inicial específico. O jab.


Um dos elementos mais importantes da Nobre Arte é o controle, a noção, de distância que um boxeador tem quando encarando outro. Isso é algo que vem de acordo com a experiência, a vivência dentro dos ringues, mas ter um jab sólido é fundamental nesse processo.

 

Por essas e outras decidi separar o Jab como um quesito próprio. 

 

Não o considero um golpe isolado como um gancho de esquerda, ou um uppercut, ou um direto, o jab é mais que esses golpes, é um artifício tanto de defesa como de ataque, nenhum outro golpe pode ser usado de tantas maneiras e pra tantos intuitos. 

 

É, sem nenhuma dúvida, o golpe mais importante do Boxe. 

 

E o jab é um golpe que é essencial independente do estilo, de Mike Tyson a Muhammad Ali, tem-se o jab como primordial para a eficiência dentro do quadrilátero. 

 

Pois bem, como dito, tudo está interligado, e uma postura adequada vai lhe proporcionar o melhor terreno para um jab melhor, que por sua vez deve vir acompanhado de uma técnica ao mínimo decente para lança-lo. 

 

Com a postura adequada você estará sempre em uma boa posição para soltar um jab independentemente de estar recuando, atacando ou circulando, é um golpe relativamente simples, pouco comprometedor (se desferido da maneira correta) do ponto de vista defensivo e simplesmente indispensável em sua ofensiva conforme veremos adiante. 

 

Um bom jab é aquele em que o boxeador não se expõe, ou pelo menos se expõe o mínimo possível, e atinge o objetivo traçado. Se expor pouco através de uma proteção maior levantando um pouco o ombro, sutilmente criando um pequeno escudo, sendo rápido no desferimento ao mesmo tempo que sem tensão nos braços, voltando em guarda em linha reta, imediatamente.
 

bowe jab ombro.jpg

Um exemplo de um jab tecnicamente perfeito por   Bowe , repare como o seu ombro cria um escudo próprio para seu queixo, Holyfield aparentemente interceptou o golpe mas de qualquer maneira não poderia contragolpear acertando o queixo de Bowe, que está atrás de seu ombro esquerdo.

 


 

Sobre técnica de desferimento de jab é também importante dizer que há uma tendência natural de se inclinar muito pra frente ao lançar um jab. O que é ruim pois acaba sendo um espaço desnecessário dado ao adversário para contra-atacar e por fazer você perder um dos pilares do Boxe que é a postura baseada no equilíbrio corporal.


Quando mais você se manter em posição ao lançar o jab, melhor, defensivamente você estará menos vulnerável quanto mais equilibrado estiver.
 

veja Chatchai Sasakul, ex-campeão mundial de Boxe (enfrentou Manny Pacquiao) ensinando um jab com uma postura e técnica perfeitas, contrastando com sua aluna Sylvie Von-Duuglas-Ittu, lutadora profissional de Muay Thai, que se inclina toda pra frente ao lançar o jab. (veja o vídeo completo no canal dela aqui )

 

 

 

um controlador de defesa e ataque

 

Muitas pessoas reclamavam durante o reinado de Wladimir Kltischko nos Pesados que ele "só tinha jab, direto", mas a realidade é que isso não é pouco, dominar o jab significa controlar a distância, e significa basicamente dominar defesa e ataque, e isso explica muito do sucesso de vários boxeadores que baseavam seu jogo no jab antes de mais nada e acabaram por se tornar grandes campeões. 

 

Lutadores que dominam o jab tem um sucesso muito grande porque assim controlam defesa e ataque.
E por que controlam defesa e ataque ?


Pelo fato do jab ser um golpe "multiuso".

 

O jab como ataque

 

 

"Toque, toque, toque....... e assim crie aberturas"    


   Mike McCallum

 

Após dominar a mecânica de desferimento deste golpe, há de se mencionar alguns usos táticos do Jab.

 

O jab tem sua função ofensiva pois como Teddy Atlas fala "ele limpa a mesa pra se comer depois". Ele é a origem de um bom ataque, de uma boa combinação.


Se você for um lutador que gosta de tomar a iniciativa numa luta, o uso de um bom jab será obrigatório.

 

Ele é o preparador de golpes de força no Boxe. 


Joe Frazier diz: "o jab começa quase toda combinação que você solta; e cega o seu oponente para os golpes que vem depois, e ainda te coloca na distância certa."


Sim, te coloca na distância certa ! Essa sendo talvez a função mais conhecida do jab.

 

Mas há outras variações úteis que merecem ser colocadas.


Por exemplo, o Jab Duplo é uma boa saída quando enfrentando alguém muito esquivo, alguém com um rápido jogo de pernas.


Meu professor de Boxe José Roberto de Oliveira sempre pregou o uso de dois jabs antes de soltar os outros golpes.


Por que usar apenas um se você pode soltar dois e preparar melhor? Dois jabs pode aumentar muito sua precisão com os outros golpes, e contra um adversário mais elusivo apenas um jab não será suficiente.
Em resumo, o jab duplo é uma garantia maior que o jab isolado.
 

 

Ressalta-se que, o jab não precisa acertar, vários pugilistas usam o que chamo de "jab falso". O jab é um golpe tão bom que mesmo sem acertar ele faz suas funções.


Observe Alexis ARguello abaixo.
 

Agora perceba o falso jab de Tyson na região da cintura de seu adversário.
 

Veja que Tyson não acertou o jab, muito longe disso, foi apenas um "meio jab", mas foi a ferramenta que o fez acertar a direita.. perceba que com o "jab falso" ele engana seu adversário e assim abre o espaço para o golpe do nocaute. (no Texto A Arte do Ataque os "falsos jabs" serão mais bem explorados)
E foi um Jab falso no Corpo.


O jab no corpo é uma das principais armas para enganar um adversário. Um jab no corpo pode levar a um golpe na cabeça em sequência, seu oponente reagirá à investida no corpo e deixará mais espaço na cabeça.

É um engodo, uma armadilha
 

foi assim que Mayweather venceu De La Hoya

Ainda, o jab no corpo pode ser útil como uma forma de "quebrar" o equilíbrio de seu oponente se desferido com uma maior precisão, muito mais que um jab alto. 
 

interessante que Floyd finge um jab na cabeça antes deste jab no corpo que derruba o oponente
 

Há ainda o jab no peito, não necessariamente baixo, mas no peito do adversário. Lembro-me de Teddy Atlas em uma transmissão de Boxe na ESPN alertando que um dos boxeadores (que enfrentava um adversário muito esquivo) deveria mirar os jabs no peito deste adversário, mirando no peito ao invés da cabeça, um alvo menor e mais difícil de ser acertado, as chances de medir a distância e preparar os outros golpes era maior.

 

POWER JAB 


George Foreman, Wladimir Klistschko, e alguns outros pesados, usavam o jab para machucar. E pensando bem, por que não ?
 

 

 

era um golpe de verdade para Foreman


Mas, evidentemente o jab não tem a força de outros golpes, por não ter muito giro do corpo. Wladimir, Foreman e outros pesados eram uma exceção, por terem força descomunal conseguiam essa proeza, e esse objetivo deve ser secundário no uso do jab.


Jabs de força no ombro (sim, no ombro) no entanto são utilizados mesmo por boxeadores mais leves, Roy Jones Jr e Floyd Mayweather são dois exemplos que já usufruiram de tal tática em suas carreiras, com o objetivo de machucar e desequilibrar adversários alguns lutadores miram seus jabs nos ombros de seus adversários.

 

Jab como defesa

 

Afinal, um dos meios de frear uma combinação de alguém é lançar um bom jab no meio dela !

 

Todo boxeador precisa, antes de soltar um golpe, se "ajeitar" e posicionar seu corpo (em frações de segundo) para que o golpe saia minimamente correto. O jab é uma ferramenta que pode fazer seu adversário nunca conseguir se ajeitar.


Digamos que seu adversário se prepara para soltar uma sequência de 3 golpes, iniciando com um jab, se após o jab dele você responder com seu próprio jab de esquerda, o próximo golpe dele ficará prejudicado.
Ou seja, o jab interrompe o ataque do adversário !!

 
E faz ele ter que recomeçar todo o trabalho. Este golpe tão importante no mínimo atrapalha a combinação de seu oponente e o mantém ocupado. Podemos dizer ainda que, se você está constantemente soltando jabs quando ele está se posicionando (e de novo, estamos falando de frações de segundo em que um boxeador "se ajeita") o volume de golpes de seu adversário vai cair, e você vai boxeando.
 

veja como Louis vai pra cima de Schmeling, solta seu jab e, em uma fração de segundo, Schmeling RESPONDE com seu próprio jab e detém a atitude de Louis, fazendo-o respeitar a distância entre eles. No Boxe, todo ataque precisa ser contido, e o jab é a melhor arma para isso. 

 

trinidad ataca com um jab imponente, enquanto Vargas se aproxima das cordas, no que Vargas, em tempo, mata este ataque com seu próprio jab, que foi usado apenas para esta finalidade.  

 

Além do mais , o jab também pode ser um fim de uma combinação, pode funcionar como uma saída segura após uma sequência de golpes, pois um jab no final da combinação na maioria das vezes vai frustrar qualquer tentativa de contra-golpe por parte de seu adversário. Um dos grandes utilizadores dessa pequena tática era Roberto Duran, assim como o argentino Carlos Monzon.

Mais recentemente Miguel Cotto usava o jab como o golpe final de uma sequência.

 

 

Monzon, após uma combinação de 4 golpes, solta jabs consecutivos para sair em segurança daquele ataque,e afasta VAldes

MOVIMENTAÇÃO DE PERNAS

 

 

Inicialmente, ressalto que, tendo uma boa postura que favorece o equilíbrio o lutador será sempre capaz de se mover com mais facilidade dentro do quadrilátero. São dois pontos indivisíveis. 


A regra elementar no jogo de pernas é simples. O pé que se mexe primeiro é o pé que está virado na direção para onde você vai, ou seja, se vai para a direita, é o pé direito que se move primeiro.


E importante destacar que a movimentação pode vir em termos defensivos ou ofensivos. Muito embora seja usado na maioria das vezes como sinônimo de defesa, o jogo de pernas pode ser ofensivo também, iremos analisar as duas vertentes.

 

jogo de pernas defensivo

 

Vamos aos deslocamentos defensivos primeiramente, e já é importante salientar que qualquer um pode correr ao redor do ringue para que o adversário não o alcance. Movimentação de pernas não é isso, movimentar-se bem, no Boxe, é muito mais. 
O objetivo principal, defensivamente, é: não ser um alvo estático! Sim.

 

Mas devemos conciliar ataque e defesa. 


"Jogo de pernas não significa correr nem pular pelo ringue. Significa se mover o suficiente para conquistar seu propósito, para fazer seu adversário errar ou acertar um contragolpe eficientemente" BOXING MANUAL Edwin Haislett

 

Isto é, se houver uma movimentação exagerada defensivamente, ao ponto de nunca se estabilizar para soltar seus golpes, você mesmo anulará seu próprio ataque, seu alvo (o adversário) ficará tão longe que você não terá nunca oportunidades de lançar seus golpes, contragolpes, muito menos uma combinação. 

 

Desta maneira, o caminhar de um boxeador deve ser moderado, proporcional, conciliar ataque e defesa.
Temos como grande exemplo de ótimo jogo de pernas Pernell Whitaker, um mestre na arte de caminhar no ringue sem que isso prejudicasse sua efetividade no ataque.

 

Mas serei mais específico agora.

 

Caminhar defensivamente é, antes de mais nada, andar para os lugares certos nas horas certas. Pode parecer uma frase de efeito sem muito conteúdo prático, mas lhes dou um exemplo muito claro:

 

 

Bernard Hopkins vs Kelly Pavlik


Pavlik possuia uma temida mão direita, era a sensação do Boxe naqueles anos, havia nocauteado vários ótimos boxeadores com essa mão direita. Mas o mesmo Pavlik tinha um gancho de esquerda pouco produtivo.

 

Vai parecer óbvio o que Hopkins fez, mas É um exemplo concreto de "andar para os lugares certos nas horas certas". 


A estratégia primária de movimentação de Hopkins foi de mover-se para o lado direito, aumentando sempre a distância de sua cabeça para a mão direita de Pavlik. Todas as vezes que Pavlik esboçava uma investida (e muitas vezes telegrafava que ia soltar a direita) Hopkins circulava para a direita. Fugia do melhor golpe de Pavlik sem esforço.
 


 

Outro caso comumente visto é o boxeador destro fugindo da mão esquerda do pugilista canhoto, andando para a esquerda. Movimentos simples, estratégicos, sem precisar de nenhum atributo físico ou qualquer rapidez de pernas.
São esses deslocamentos de defesa que fazem o jogo de pernas reduzir a efetividade do ataque do outro boxeador.


jogo de pernas ofensivo

 

Agora vamos ao, pouco falado, jogo de pernas ofensivo.


Os americanos tem um termo pra isso que se chama de "cutting off the ring", traduzindo seria encurralar o adversário.

 

Colocá-lo contra as cordas, ou no córner. Como dizia Joe Louis: "Eles podem correr mas não podem se esconder"

 

A cena clássica de Rocky II quando Mick manda Rocky tentar pegar uma galinha num beco demonstra a mentalidade dessa técnica de ataque. 

 

Tenho que voltar a falar de jab também para ressaltar que o jogo de pernas ofensivo está, indispensavelmente, ligado a um bom jab, consecutivo, atualmente não há um melhor exemplo disto que GGG.

Algo como Mike Tyson fazia em seus melhores dias:
 

No gif acima alia-se as duas coisas. Jab ofensivo e jogo de pernas ofensivo. É sutil, mas preste atenção em como Tyson vai para dentro do ringue,  Tyson sai para a direita e depois de novo afunila o caminhar pra colocar Marvis contra o córner.

 

Não há uma tradução no meio do Boxe em português para o cutting off the ring (pelo menos que eu tenha conhecimento) portanto chamarei de "cortar o ringue".

 

Basicamente, cortar o ringue requer que se dê passos laterais enquanto se anda para frente.
A pior coisa que um agressor pode fazer é seguir um boxer sem passos laterais, apenas continuamente em linha reta. E os melhores agressores do ringue eram mestres em cortar o ringue.

 

Assista lutas de Foreman e note como ele caminhava.

 

Mick sabia das coisas, afinal funciona exatamente como tentar pegar uma galinha num beco, tente seguir um animal sem passos laterais e veja se consegue pegar qualquer deles assim.

 

efeito mental


Eu adiciono que cortar o ringue tem um efeito psicológico também, se o adversário possui "locais de fuga" fáceis quando é atacado ele não é forçado a cometer erros como seria se estivesse totalmente encurralado.

 

Deixe alguém sem saídas seguras e isso criará pânico, tensão. Psicologicamente a arte de cortar o ringue faz seu oponente ser forçado a arriscar mais.
 

buscando ângulos diferentes

 

Há outro ponto no jogo de pernas ofensivo, que é buscar ângulos diferentes quando atacando e soltando combinações.


Atualmente Vasyl Lomachenko é um ótimo exemplo disso.
 

 

Observe como Lomachenko "anda ao redor" do oponente buscando espaços para bater ao mesmo tempo em que se põe fora do raio de ação deste.

 

Manny Pacquiao era outro que sempre fez bom uso desta técnica.

 

Geralmente se faz esse tipo de técnica contra alguém que se fecha muito quando atacado atrás de uma guarda cerrada.


E não deixa de ser um bom uso das pernas.

 

No final, a pergunta que um boxeador tem que responder é: Quão úteis são suas pernas para a frase "To Hit And Not Get Hit" ser cumprida ?
Tanto do ponto de vista defensivo como no ofensivo, suas pernas são os vetores do seu sucesso na hora de sair de um golpe, e na hora de acertar um bom golpe. No fim das contas, a movimentação é um balanço entre defesa e ataque, um ponto de equilíbrio entre as duas facetas do jogo.

 

 

DEFESA

 

No Boxe, é a partir da defesa que se constrói o ataque. Acredito que a defesa sempre deve ser aprendida antes para a partir daí ser feita a transição para o ataque.


No texto Guia do Contragolpe você verá a importância da defesa nesta transição, não é uma concidência que lutadores muito ofensivos como Mike Tyson, Roberto Duran, Julio Cesar Chavez, todos possuiam excelentes defesas.


O leitor já pode ver uma tática de defesa acima que é a movimentação, e com ela podemos, por exemplo, eliminar o principal golpe do adversário. E já viu outra, que é o jab !

 

A principal forma de defesa do maior boxeador de todos os tempos Sugar Ray Robinson era sua movimentação.
A principal forma de defesa de um dos melhores pesados da história, Larry Holmes, era seu jab.

 

GUARDA

 

Mas a defesa primária de um boxeador são as suas próprias mãos, em guarda.

Altas, mas com os cotovelos protegendo as costelas.

 

É a maneira mais básica e fácil de se defender. Devendo, obviamente, ser a primeira que um aspirante a boxeador aprende.


Joe Frazier ainda, adiciona em seu livro Box like the Pros:
"Mesmo que suas mãos estejam altas no seu rosto, seus olhos devem estar abertos atrás de suas luvas para que vocÊ veja o que está acontencendo"

 

O que me leva a citar outra frase igual de outro grande campeão peso pesados, Jack Dempsey:
"Nunca feche os seus olhos, não importa qual golpe está vindo" Jack Dempsey, Championship Boxing.

 

No entanto a guarda é um tipo de defesa que depende das luvas, depende do tamanho das luvas.

 

Fechar a guarda com luvas de Boxe de 10 onças protege mais do que fechar a guarda com luvas menores, ou sem luvas.

 

Essa é a razão que a guarda fechada era pouco usada nos primórdios do Boxe. Afinal se você reparar, as luvas tinham metade do tamanho das de hoje, com bem menos enchimento.

 

Nos anos 10, 20, 30, 40 as luvas usadas no Boxe eram do tamanho de luvas de MMA, além do fato de terem seus dedões soltos e não grudados como nas luvas modernas.

 

Isso refletia em uma eficiência bem menor da guarda como modo de defender golpes no rosto.  Com luvas pequenas havia aberturas nas quais os golpes ultrapassavam com facildiade, e mesmo se não passassem havia um impacto considerável.


Portanto, naqueles dias as técnicas de defesa mais usadas eram outras.
Eram, o que se chama de PARRY (interceptar os golpes com as mãos), e a esquiva ou pêndulo.

 

Observe Joe Louis lutando.
 


 

Isto que ele está fazendo com as mãos é o "parry".

 

Acrescento que essa técnica é extremamente prevalente no Boxe moderno também.

De La Hoya, Evander Holyfield, Bernard Hopkins, Lomachenko e GGG são alguns exemplos.

 

O Parry se mostra um ótimo mecanismo para que o boxeador não perca a visão ao mesmo tempo que é um mecanismo melhor para contragolpear. (você verá no texto A Arte do Ataque as desvantagens do Parry e no tópico Guia do Contragolpe mais detalhes sobre vantagens e desvantagens dos tipos de defesa etc.)

 

 

A Esquiva e o Pêndulo

 

Se valer apenas da guarda pode ser perigoso. Afinal, o bloqueio nunca tirará 100% do impacto de um golpe.
Em vários casos.. muito pelo contrário.
 

 

 

 

Movimentos corporais são mais difíceis de serem postos em prática, mas são os melhores meios de defesa. 
Há quem diferencie esquiva e pêndulo, os dois são movimentos corporais para evadir, para fazer o adversário jogar o golpe no vazio.

 

Pêndulo seria uma esquiva com o boxeador agachando e girando o corpo para sair dos golpes. Usando a flexão dos joelhos. Mais abaixo você verá um bom exemplo de pêndulo (feito por Joe Louis).

 

Mas ambos são "movimentos de cabeça", lembrando que, como foi dito no começo deste texto, que nunca é a cabeça em si que move, e sim o tronco. A cabeça não tem movimentos independentes e é parte do tronco do boxeador.
 

Prefiro usar a nomeclatura esquiva para todos os movimentos corporais que façam o adversário jogar o golpe no vazio, o pêndulo é uma esquiva. 

 

Há ainda, o que se chama de "Toureada", que na verdade poderia fazer parte do capítulo acima Movimentação.

 

"O lutador faz um movimento de 90 graus com a perna de trás e fica na posição de entrar com um contragolpe
A toureada é na verdade um giro para o lado realizado sempre para fora do golpe desferido pelo oponente.
" Cláudio Coelho, BOXE - Método de Aulas para o Treinador Iniciante, pág 174.

 

Um detalhe é que a toureada funciona melhor para lutadores canhotos.
Manny Pacquiao fazia uso da 'toureada" as vezes. 
 

De qualquer maneira, há um princípio da defesa que nunca deve ser esquecido:


Após terminar o golpe, algo deve ser feito. Seja mover a cabeça, seja dando um jab pra finalizar a combinação ou recuar, etc.. Os treinadores americanos tem uma expressão para esses momentos: "dont admire your work", não admire o seu trabalho. Muitos se descuidam depois de um golpe ou depois de uma combinação por não voltarem com a mão na guarda ou não esquivarem, e deixam a porta aberta para um golpe do adversário após o término de seu ataque.

 

isso aliás, é o que muitos chamam de pêndulo

Resumindo, nunca deixe de fazer algo defensivametne, principalmente quando no raio de ação do adversário.

 

 

Versatilidade

 

Na verdade, os grandes boxeadores nunca se limitavam a apenas um tipo de defesa, Eder Jofre e Mike Tyson não tiravam as mãos em guarda da frente do rosto, mas, também (e principalmente), usavam de esquivas para se defender.


Por último, é importante que se tenha em mente que a defesa é, na maioria das vezes no boxe, mais difícil de se dominar do que o ataque, mas também deve se ter em mente que esta deve ser priorizada.

 

Um lutador sem uma boa defesa, mesmo que seja excepcional na sua ofensiva acaba por sofrer consequências graves em sua integridade física por mais duro que seja (Bobby Chacon). Lutadores que negligenciam a defesa, em quase todos os esportes de combate, acabam sofrendo por um tremendo encurtamento de sua vida útil de atleta.
 
Conclusão

 

Os detalhes acessórios, de muita importância também, crescem com firmeza a partir dessas noções. 

 

Detalhes como fintas na hora de atacar, combinações, infighting, golpes na linha de cintura, etc, são vistos em outros artigos deste mesmo site.

 

Mas acredito que estes 5 itens são os mais essenciais. 

 

E um grande boxeador, antes de mais nada, precisa possuir o que chamo de: 
Pilares do Boxe.